A captura da rua sem nome – #3: Zé

III- Zé

No tangolomango, entre os curiosos que conversam com os policiais e o homem algemado que espera a ambulância está o senhor José Carlos Franco Fernandez.

Seu Zé, como é chamado pelos íntimos, é o dono da casa que fora invadida mais cedo.

Zé sente-se redimido com a surra que o criminoso recebeu de seus filhos, faz tempo que ele não se sente seguro.

Seu Zé tem 64 anos e é coronel aposentado da Brigada Militar. Ele sempre cumpriu seus compromissos e deveres com eficácia e eficiência. Durante os últimos dias, ele vinha se sentido inseguro, como se sua casa estivesse sendo observada.
No meio da tarde do dia anterior seu Zé liga para seu filho que trabalha como barbeiro no centro da cidade. Desconfiado e temendo o pior, ele o convida dormir na sua casa. Continuar lendo

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A captura da rua sem nome – #2: Lei

II – Lei

Entre tics, tocs, e pausas, os cliques ritmados e inaudíveis de um relógio anônimo marcam o passar do tempo. Em uma parede engordurada de algum cubículo úmido das redondezas, abaixo do relógio, em uma pequena prateleira de mogno, um volume indiferente diz que o mundo segue, inabalável, sua marcha em direção ao progresso.

E por aí vai… Continuar lendo

A captura da rua sem nome – #1: Vingança

I – Vingança

Quinta-feira, dez e meia da noite, o silêncio impera. As pessoas estão recolhidas em suas casas, o laranja das luzes dos postes invade janelas e frestas e, languidamente perpassa as cortinas nas salas de estar. O mundo repousa preguiçosamente até sua próxima lida, entre sofás e camas. As pessoas recarregam suas baterias, repousam, para dar o ultimo gás em mais uma semana no curso de suas histórias.

Psiu, você percebe? Escute:

O silêncio é ensurdecedor, tranquilizante.

Como que em um acordo tácito, todos os moradores das redondezas entregam e apreciam o silêncio em todos arredores, como um prêmio a todo o suor e sangue que entregam. Suas contribuições à manutenção da ordem do mundo.

Apenas os animais e alguns retardatários podem quebrar o silêncio, todo o resto, deriva do extraordinário, do inesperado. Continuar lendo

Caveiras e diplomas

Ser feliz, alegre e celebrar as vitórias pessoais. Celebrar as conquistas de outros mil que, assim como eu, passaram pelo mesmo trauma e pela mesma provação da qual eu acabei de me livrar. Comemorar, sim. Libertar o meu eu das amarras impostas pelas tarefas e pela excruciante rotina de quem busca muito algo. Deveria eu comemorar?

Do que vale um carro novo? Do que vale uma casa maior ou um diploma universitário?

Deveria eu ser feliz pelas conquistas e por isso comemorar? Ou talvez eu devesse simplesmente purgar as dores e angústias que a perseguição de objetivos me trazem?

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Sobre Gerações

Talvez seja esse o tópico do dia, gerações.
Eu sempre tenho a impressão que muito do que fazemos no inicio da fase adulta não passa de lutar pelo puro prazer de “porque sim”.
Me vem à cabeça que talvez toda essa problematização seja fruto de mais um ciclo da história, onde os jovens não tem mais paciência de esperar que os mais velhos passem o bastão apropriadamente para mudarem o mundo, gritamos, brigamos e queremos que todos os velhos que até agora escreveram as regras usem a própria caneta para moldar o fim de suas vidas como o inicio das nossas.

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Intelectual, mas idiota

Por Nassim Nicholas Taleb, traduzido por Gabriel Segundo

16 de setembro de 2016[A]

Introdução

Texto publicado por Nassim Nicholas Taleb em seu blog na no Medium. Original disponível em inglês em The Intellectual Yet Idiot. Tradução publicada em IIindex por Gabriel Segundo em 21 de fevereiro de 2017. A reprodução desse conteúdo é livre para todos os meios menos o Huffington Post (em todas as línguas), assim como o original em inglês, desde que cite a fonte do original.


Oque viemos acompanhando pelo mundo todo, da India até a Inglaterra passando pelos EUA, é uma revolta contra o núcleo dos fora-do-jogo, funcionários legisladores (fazedores de política) e jornalistas insiders, aquela classe paternalista de experts semi-intelectuais advindo de universidades de prestigio [B] ou qualquer outro tipo de educação voltada para o nome da instituição que estão dizendo para o resto de nós 1) o que fazer, 2) o que comer, 3) como falar, 4) como pensar… e 5) em quem votar. Continuar lendo

Bençãos?

Bênçãos, dádivas, milagres, concessões divinas ou mesmo superiores. Resultados, recebidos por um suposto merecimento, correto?

Mesmo que sejam e existam, não seriam as bençãos simplesmente um pedido de desculpas?

Desculpas.

Pela dor, pela angústia, pela agonia que enfrentamos, pelas perdas, pelas lágrimas que derramamos em nome do convencimento de que teremos alguma recompensa. E no fim, no apagar das luzes, no selar do caixão, no retornar à rotina, há aqueles que acreditam piamente que até os menos afortunados, os miseráveis, os infelizes, os acometidos pelas dores de uma existência que, fora da nossa percepção, da nossa gaiola dourada, não nutre nenhum tipo de senso de justiça, terão a redenção prometida pelos belos contos dos homens de boa índole.

Pergunto mais uma vez,

Bênçãos? Para quem? Continuar lendo

Talvez eu não devesse desistir de tirar fotos

Olá, bem-vindos (alguém por aí? hey?) a mais uma tentativa.

Não tenho boa memória. Nunca tive. Ainda mais chegando a vida adulta. Comecei a torrar entre outras coisas os neurônios que tenho e piorar ainda mais a minha memória. A vida adulta tem dessas coisas, nos joga numa rotina que nos absorve e nos torna vitimas dela. Diariamente somos atropelados pela avalanche de tarefas, problemas e dilemas que nos lacram em uma gaiola “dourada”, onde quase não sentimos o tempo passar até que começamos a perder as coisas que nos são mais caras.

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