A captura da rua sem nome – #3: Zé

III- Zé

No tangolomango, entre os curiosos que conversam com os policiais e o homem algemado que espera a ambulância está o senhor José Carlos Franco Fernandez.

Seu Zé, como é chamado pelos íntimos, é o dono da casa que fora invadida mais cedo.

Zé sente-se redimido com a surra que o criminoso recebeu de seus filhos, faz tempo que ele não se sente seguro.

Seu Zé tem 64 anos e é coronel aposentado da Brigada Militar. Ele sempre cumpriu seus compromissos e deveres com eficácia e eficiência. Durante os últimos dias, ele vinha se sentido inseguro, como se sua casa estivesse sendo observada.
No meio da tarde do dia anterior seu Zé liga para seu filho que trabalha como barbeiro no centro da cidade. Desconfiado e temendo o pior, ele o convida dormir na sua casa.

— Eu precisava que você dormisse aqui hoje JP… Ontem eu ouvi barulhos no teto durante a noite. Parecia que haviam pessoas tentando entrar. – Diz homem, em tom baixo e confidente.

— E tu tivesse mais algum sinal depois? Pergunta João Pedro em tom sério e curioso. – É o filho mais velho.

— Sim! Eu abri o forro perto da porta e eu vi que algumas telhas foram mexidas. Eu preciso que tu durmas aqui… nem que seja para me tranquilizar um pouco – diz o velho homem.

— Hoje fica difícil, tenho que buscar a Marla da apresentação dela… fiquei de levar ela pra comer pizza com as outras crianças – JP suspira profundamente e fala em tom pesado -, pede pro Luiz dormir aí hoje que amanhã eu fico ai com vocês ok?

Paliativos…

— Certo… Mas fica com o telefone de prontidão na madrugada ok? Daí se eu precisar, te ligo. – Diz conformado o desapontado senhor.

— Certo pai, pode deixar.

Durante a tensa noite de quarta-feira Zé e Luiz, – que não tinha muito mais capacidade de se defender que seu pai – revezaram turnos de vigia. Acordados e fazendo barulho para que os assaltantes não tomassem liberdade com suas coisas.

Lentamente a tensão foi crescendo, um fenômeno até certo ponto esperado. Do jantar até as 3 da manhã todos os passatempos eram fugas e todos os tiques do preciso relógio quartz na parede estavam embebidos de receio. O universo, essa indiferente e expansiva massa gelatinosa permeada por pequenos pontos de luz se transmutava para suas ansiosas testemunhas como um predador, reduzido à sua mais pútrida criação: a humanidade e os homens maus que eles esperavam não ter que receber.

E o tempo correu. A madrugada já retirava-se e os passatempos tornavam-se o centro das atenções, reflexões oníricas e anuviadas pelo peso das pálpebras trespassavam a mente dos dois homens, suas jogadas cada vez menos fazem sentido, eles se esforçavam – cada vez com menos sucesso – para parecerem atentos à vigia.

E por fim, a noite passou morosa e sacal.

***

Durante a mesma noite na rua, a garoa fina dividia o passeio com dois jovens que se escoravam em suas velhas bicicletas carrancudos, úmidos e tranquilos. Eles se abrigavam sob a fachadas das casas que os protegiam da chuva. Haviam decidido esperar por hoje, e caçar algum desafortunado sem vale-transporte.

***

Durante a tarde daquele dia a família arrumou as telhas e, graças a o esforço coletivo, passaram a noite incólumes.

Até quinta.

***

A quinta-feira chega. Logo de manhã a ligação de ontem se repete. Como o prometido, João Pedro se Junta a Luiz e seu Zé na vigília. JP acha que seu pai está exagerando, mas mesmo assim se dispõe a dormir na sua casa, afinal, quem melhor pode perceber os olhos dos vagabundos fitando os lugares do que um ex-coronel da brigada?

JP sai do trabalho cansado, passa em casa e avisa a mulher que vai dormir no pai. Ela consente só se puder ir junto. E Ele consente.

São sete horas e quinze minutos de quinta e seu Zé compra pregos em uma ferragem, chega em casa e pega o velho e enferrujado martelo. Arruma a velha escada de metal branca que, sem borracha em um pé bamboleia da direita para a esquerda. Ele soluciona o problema colocando uma velha ripa de madeira sob o lado sem pé da escada. Luiz sobe para o telhado pela parte de fora da casa e prega as telhas removidas e em algumas outras ao redor do buraco. Enquanto isso, seu Zé olha preocupado para a grande grade verde-claro de pontas curvas que se ergue ao lado da porta de sua casa, de frente para o pátio.

Na sua barriga café e calafrios, na sua cabeça a torcida para que os assaltantes não sejam astutos o bastante.

JP desliga o telefone. Falava com sua sogra, ela vai cuidar por hoje de Marla. Ela mora num bairro rico, em um condomínio fechado de alto padrão. João Pedro agora vai arrumar suas coisas, uma muda de roupa e seu laptop para que possa trabalhar durante o fim da tarde. Ele põe suas coisas na mochila e troca de roupa, coloca uma calça de abrigo, uma camisa branca, um casaco hoodie e a sua faixa preta do seu surrado quimono de treino.

Ele é lutador, em mais de um sentido.

Sete e meia era o horário combinado. JP nunca se atrasou, seus pais sempre foram linha-dura com relação à sua disciplina.

Hoje não foi diferente.

***

Ele e Cristina, sua esposa, chegam em seu sedan branco, simples e limpo. Estacionam na garagem da casa verde e vão para dentro. Lá se acomodam no seu antigo quarto, colocando um colchão de solteiro a mais grudado no seu velho colchão densidade 33.

As nove horas todos se juntam para comer. Os últimos quarenta e cinco minutos foram para que os garotos tivessem uma conversa animada a sós com seu pai e para que Cristina e Maria, esposa de Zé, preparassem juntas um macarrão à carbonara para o jantar.

O molho branco borbulhante cravejado com pedacinhos de bacon foi misturado com o macarrão “al dente” e posteriormente colocado em uma vasilha. Cristina enfeita a travessa com uma pequena casca de tomate em forma de flor no, bem no topo da cheirosa montanha de comida, ela vai até sala de estar chamar os garotos para comer. Durante a conversa com os meninos, Zé reforçou o pedido das ligações.

— Não vamos falar sobre essa coisa de assalto com a mãe de vocês ok? – Segredou o homem temeroso em exaltar sua mulher que, faz tempo, sofre com problemas de cardíacos de ordem emocional.

Ambos os filhos consentem e em ritmo lânguido sentam-se à mesa e saboreiam a sua refeição. O macarrão estava perfeito como sempre, é comida de mãe. Todos comem, Luiz e Zé repetem a dose e comem dois grandes pratos de macarrão coberto de queijo parmesão ralado grosso. Tudo parece muito bem.

Dez para as dez. Entre garrafas de Stella Artois e copos de Coca-Cola cada um tem à seu dispor uma rechonchuda bergamota. Sempre depois de uma refeição tranquila pai e filhos se levantam para sentar ao sofá e encher a mesa de centro de cascas e xícaras de café, as sementes, são depositadas no cinzeiro. Luiz e Zé fumam e acabam afastando Cristina que vai com sua bergamota até a cozinha lavar a louça. No meio do caminho, topa com Maria, elas tem uma breve conversa e Cristina compartilha suas ideia. Ela é simpaticamente dissuadida de sua tarefa por Maria.

— Não se esquenta, amanhã eu e o Zé damos jeito nisso, vocês são visita por aqui hoje. – Diz em tom simpático a senhora.

— Certo, mas tem algo mais com qual posso te ajudar? – Cristina sempre foi querida por sua sogra.

— Tem sim, vamos ali no pátio de trás. Me ajuda a recolher as roupas?

— Claro! – diz Cristina, com disposição.

Ambas saem em direção ao pátio de trás. Ao chegar lá elas começam a recolher as roupas dos dois varais. Uma em cada um, vindo de um lado para o outro, de encontro a outrem.

Maria recolhe as roupas intimas, calças e calções. Cristina recolhe as camisas, saias e meias. Uma música animada e ritmada vem da janela da sala. Música gaúchesca. Os meninos aprenderam a ouvir com o pai, em suas longas viagens juntos a Porto Alegre, João cantava baixinho puxando discreto o coro, seguido por seu Zé.

“Não podemos se entregar pros homens de jeito nenhum…”.

Um prenúncio?

***

Enquanto a musica tocava animada e cada vez mais turbinada pelas vozes já menos tímidas dos rapazes lá dentro da casa, Maria e Cristina se cruzam enquanto recolhem as roupas. Maria olha para Cristina, que a olha com um olhar cansado e tranquilo, ela então diz:

— Eles estão aqui porque o Zeca tá desconfiado de novo não é? – relatou a senhora em tom baixo e sério.

— Não que eu saiba… – responde evasiva Cristina.

— Para de fingir Cristina, eu sei quando estão mentindo para mim… Eles estão aqui porque o Zeca ligou pra eles no caso de entrarem aqui. Não sou nenhuma criança, além do que, tu não trouxe a Marla e não disse nada. – diz em tom enfático a senhora de olhar castanho e especialmente penetrante, esse reforçado pelas feições sérias do seu rosto.

Cristina suspira, olha para baixo e diz:

— Sim, é isso. – Ela coloca a roupa no cesto, coloca sua mão direita sobre o antebraço esquerdo e, olhando para o chão completa:

— Ele nos ligou ontem, mas não podíamos vir, então o JP pediu para que o Luiz ficasse por aqui ontem. Hoje a gente veio esperando o pior.

— Como tu percebeu? – perguntou a mulher em tom resignado.

— O JP só usa o robe do quimono quando ele espera brigar ou quando treina. Ele faz isso desde criança.

— Algumas coisas não mudam não é? – diz Cristina dando uma risadinha desanimada. – Você vai falar com eles sobre o que tu descobriu?

— Pois é, vocês saem das nossas casas e acham que seu mundo agora é uma surpresa para nós… O tempo passa e muitas coisas permanecem, vocês só elaboram o que aprenderam com seus pais. – Diz Maria em tom terno.

— É verdade… – Respondeu-lhe Cristina.

— Bom, não se preocupa, eu não vou falar nada para ninguém. Tomei uma dose extra do meu remédio e, a não ser que o teto desabe, vocês não vão ouvir de mim até amanhã de manhã… Vamos lá, me ajuda com esses cestos, certo? – Complementou em tom baixo e calmo.

As duas mulheres entram do pátio dos fundos e passam pela cozinha, pela sala, dobram a direita no corredor e seguem para o lavabo. Alguns minutos depois o celular de João Pedro vibra e emite tímido sons monocórdicos e polifônicos. Ele checa o celular, é Cristina, ela escreve:

Tua mãe sabe de tudo, ela me disse ali fora. Baixa o som que ela vai ir se deitar agora, eu tb.

O som baixa, Maria e Cristina passam e se despedem. Uma vai ver séries no seu notebook no quarto, a outra vai para cama e rapidamente se entrega ao breu das negras cenas dos sonhos de Valium.

Dez horas. A vigília começa, JP e Luíz ficam de guarda, eles estão despreocupados. Assistem ao clube da luta no Netflix. João havia dito que era um de seus favoritos. Luiz, que não gostava de filmes, não fez muitas objeções pois gostava da ideia do filme, aprazia-o um aquece, se fosse necessário violência.

O filme era um dos poucos favoritos do desinteressado João Pedro, o nome de sua filha foi uma referência ao clube, ele gostava de como aquele filme se desenrolava, como tudo era incomum, como Brad Pitt estava bem naquele papel e como aquela selvageria toda e todo aquele delírio coletivo transformavam através da indulgencia, da dor e do terror carvão bruto e sem valor, em diamantes plenos e com propósito.

Seria Robert Paulsson, se assim precisasse.

Daria tudo de si, estava no clima. Lutar, sofrer, morrer se necessário. O homem agora era tomado pela cólera da arte, era um mártir em nome de ideias, sua mente estava nublada pelo fervor das suas mais infantis fantasias, embriagada de heróis de gibis e dos jogos de luta, estava hipnotizado pelo senhor Durden. Era ele próprio uma caricatura única de suas ideias favoritas daquele filme e de suas histórias, bem ao contrário de seu irmão, que só ficava nervoso e com medo, não que o Luiz tivesse dito, apenas era perceptível.

O tempo passa.

O filme passa.

O medo passa.

E o silêncio está prestes a passar.

***


Continua…


Esse texto é o segundo de uma série de cinco que contam a história da captura de dois assaltantes por suas vítimas.

Fique ligado para a sequência dessa história: IV – Outros Zés. 

Leia os textos anteriores:

A captura da rua sem nome – #1: Vingança

A captura da rua sem nome – #2: Lei

Para ler e ver mais das minhas coisas você pode acessar: IIindex.com

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