A captura da rua sem nome – #2: Lei

II – Lei

Entre tics, tocs, e pausas, os cliques ritmados e inaudíveis de um relógio anônimo marcam o passar do tempo. Em uma parede engordurada de algum cubículo úmido das redondezas, abaixo do relógio, em uma pequena prateleira de mogno, um volume indiferente diz que o mundo segue, inabalável, sua marcha em direção ao progresso.

E por aí vai…

***

Em ritmo oposto ao propagar das ambíguas-novas e notícias, chegam os policiais da brigada militar. Por um longo instante, a viatura lentamente toma para si o centro de toda inação. Os agentes param o carro ao lado da quieta e discreta muvuca. Os agentes vão ao encontro do grupo de justiceiros amadores averiguar o que se passa.

Os brigadianos, descem em ritmo apático da viatura com quê de má vontade e desdém com toda a situação. Não é para menos, é dia 8 e os policiais receberam apenas quinhentos reais dos salários que lhes cabem.

O estado doente, está há muito falido e passa por uma situação histórica de convalescênça financeira que, há alguns anos, começou a infectar a vida privada dos seus mais valiosos e frágeis servidores, entre os quais esses homens que tem como dever defender-nos dessa estirpe de déspotas anônimos que, como Romeu, tentam impor a subtração daquilo que nos é tão caro.

Os homens entediados e de semblante sisudo olham de cima a situação. Estão apenas de corpo presente. Tudo aquilo que se manifesta deles é como um frêmito regurgitado de um procedimento aprendido nas apostilas do concurso público e nos treinamentos de campo. Suas mentes estão absortas em como resolver a complicada equação que as dificuldades alheias ao seu trabalho impõem à suas vidas.

Não era para ser tão difícil.

***

Leandro Dias tem 35 anos e é pai de duas meninas, Júlia e Laísa.

Ele está divorciado, fazem três anos.

Sua presença na cena do crime é apenas a sombra de um homem atormentado por tudo aquilo de que está abrindo mão para cumprir por mais um mês com o depósito da pensão de suas duas princesas.

Maria, a mãe das meninas, trabalha em uma loja no centro. Ele é caixa de uma loja de R$ 1,99 e com o salário mínimo que recebe não tem condições de manter as duas sozinhas. Já Leandro vê quase toda a ínfima soma que possui sumir diante de seus olhos, fruto dos seguidos adiantamentos e empréstimos que tem feito para manter em dia a pensão das meninas.

Tudo no banco do estado.

Apesar de separados, os dois sempre mantiveram boas relações. Após o divórcio, depois de seis anos de casamento, a dificuldade que ambos atravessam em prover tem estremecido sua delicada relação. Os constantes atrasos e faltas com as garotas têm gerado muita briga e frustração, bem como a privação de precioso tempo com suas filhas.
As meninas choram na fila de um macroatacado por um chocolate que lhes é negado, e em meio a uma tempestade de frustração as visitas ao pai, até então combinadas com tranquilidade e sempre extrajudicialmente, começaram a serem negadas a Leandro. O sentimento de falha que não lhe cabe em tal arranjo, começa a invadi-lo como uma febre, que, intermitente e paulatina se oferece até que, no auge do desespero é tomada como um fardo seu e envenena o inocente policial que agora se guarda para o bico de segurança de festas na sexta-feira.

E as migalhas que lhe restam da fração do salário servem apenas para que ele não morra de fome, e para que não falte leite para suas meninas.
Vidas diferentes, boates diferentes…

***

Carlos Santos, seu parceiro de ronda da noite, se encontra em semelhante situação de convalescênça financeira, e só, também gasta suas energias tentando resolver o quebra-cabeças de sua vida.

Eles gastam suas energias fazendo contas e bicos e gastam sua fé no sonho de dias melhores, na expectativa de qualquer migalha que permita-lhes retomarem alguma normalidade de suas vidas.

O mundo é duro com os homens e mulheres que dedicam suas vidas a nos proteger. O Material de trabalho sucateado, o efetivo insuficiente e o treino militarizado são, há muito tempo, o contexto comum onde todos trabalham, além é claro, de toda essa situação de desleixo de um estado formado por instituições que, autocentradas, servem-se dos mais sutis traços de crise para abusar em beneficio próprio da docilidade e diligência de seu povo.

Todos estão completamente sós, os vermes da justiça mostram-se ávidos em conjecturar grandes argumentações em nome de seu salário integral no dia combinado, mas não veem valor em honrar o compromisso assumido com aqueles que mantém a sua autoridade e legitimidade.

Vida que segue, dias que passam…

E as certezas se desfazem diante de nós.

***


Continua…


Esse texto é o segundo de uma série de cinco que contam a história da captura de dois assaltantes por suas vítimas.

Fique ligado para a sequência dessa história: III – Seu Zé. Você pode encontrar o primeiro texto aqui (A captura da rua sem nome – #1: Vingança.

Para ler e ver mais das minhas coisas você pode acessar: IIindex.com

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