A captura da rua sem nome – #1: Vingança

I – Vingança

Quinta-feira, dez e meia da noite, o silêncio impera. As pessoas estão recolhidas em suas casas, o laranja das luzes dos postes invade janelas e frestas e, languidamente perpassa as cortinas nas salas de estar. O mundo repousa preguiçosamente até sua próxima lida, entre sofás e camas. As pessoas recarregam suas baterias, repousam, para dar o ultimo gás em mais uma semana no curso de suas histórias.

Psiu, você percebe? Escute:

O silêncio é ensurdecedor, tranquilizante.

Como que em um acordo tácito, todos os moradores das redondezas entregam e apreciam o silêncio em todos arredores, como um prêmio a todo o suor e sangue que entregam. Suas contribuições à manutenção da ordem do mundo.

Apenas os animais e alguns retardatários podem quebrar o silêncio, todo o resto, deriva do extraordinário, do inesperado.

Da suplica, de um grito.

São onze horas da noite de uma quinta-feira no porto da cidade. Entre a rua X e a rua Y um grupo de moradores cansados e infelizes observam atentamente todo o rebuliço que uma mulher faz enquanto dois homens, um de camiseta branca e outro de camiseta vermelha mantém sob violento controle um jovem adulto.

Todo o barulho, e todo alvoroço nas esquinas de meio-fio alto naquela região humilde e atirada à própria sorte são de responsabilidade dessa mulher de cabelos dourados, casaco rosa e voz histérica.

Ela grita, suplica aos captores que parem de bater em seu amado.

***

As noticias se espalham rápido. Todos os moradores da quadra, mais ou menos nesse ponto, já acompanham das portas, varandas e sacadas de suas casas e apês toda a ação com olhos vivos e ouvidos atentos. Do outro lado da rua de duas pistas, um grupo de jovens que acabara de criar coragem de abrir sua porta para entender o que estava acontecendo prontamente descobre:

O homem no chão tinha tentado assaltar uma casa nos arredores e foi capturado pelos moradores e, manifesto o seu interesse em controlar o que não lhe cabe e aos infortúnios da falta de percepção, Romeu, o assaltante, foi pego tentando lucrar sobre o que não era seu e, claro, foi duramente lembrado de que o esforço precede a conquista.

E devo dizer, quanto esforço para refrescar uma memória…

***

O homem jaz ferido, aviltado e devidamente subjugado. Agora, todo o rebuliço se resume aos ecos de um choro descompassado e à roucos berros de súplica que, paulatinos e afônicos, pintam de tragédia e miséria o cultuar de Julieta por seu tão quimérico, peculiar e absurdo Romeu.

Mais tensão, mais problemas.

Ao passo que as noticias correm, os pontapés voam e a tensão aumenta. Julieta começa a descrever, frenética e errática, diversas elipses em um raio de meia quadra de onde tudo acontece. Sua ansiedade é nítida aos curiosos e aos transeuntes, seu desabafar é alto, rouco e inconformado, todos os curiosos são seus confidentes, todos a escutam atônitos, armados de humanidade e desprezo, cada qual em sua medida.

O destino é cruel com Julieta, lhe entregou um vilão para vestir a carapuça de seu herói e salvar seu mundo.

Um herói para si, mas não para o mundo, lá, no que chamam de “real”, ele não passa de um vilão, um vagabundo qualquer.

Uma pena…

Os assaltados mantém o controle da situação conforme o homem deitado no chão, à sombra de seus captores, sacoleja inutilmente seus calções de praia e suas pernas magras em protesto à retenção.

A dupla irada de moradores novamente volta à carga, eles socam e chutam, Romeu desmaia e começa a ser arrastado pelo esburacado e frio asfalto para o bueiro mais próximo.

Vão jogá-lo.

***

Quando os demais percebem o arrastar do homem em direção a fenda abaixo dos pés dos curiosos, o burburinho retorna com força e com a adesão de diferentes vozes. Todos, vizinhos, anônimos e curiosos juntam-se a Julieta e protestam contra a ação da dupla de moradores ensandecidos pela audácia de Romeu. A correria volta nos passos de Julieta, ela investe ao burburinho para salvar seu amado. Imediatamente, em resposta, um dos homens em plena fúria grita:
– Se afasta se você na quer problema, some daqui. Disse o homem barbado, contido em sua fúria pelos gritos dos vizinhos atrás dele.

Aquilo que nos é visível de seu rosto, seus olhos abertos, veias saltadas e o rosnar agressivo de sua voz são a figura mais perfeita de alguém que perdeu o fio da meada, a mulher percebe e se afasta amedrontada.

Os vizinhos da esquina diagonalmente oposta agora vêem levitar ao seu redor a alma penada. Julieta nos seus trinta e poucos anos foi desgastada pelo tempo, pela ausência de sonhos, direção e propósitos. Possui grandes olhos castanhos, feições magras e um pequeno queixo arredondado que marcam seu rosto em forma de triângulo invertido. Sua face é recoberta por uma pele âmbar, marcada pelo tempo e duramente surrada de miséria e pobreza.

Seus trejeitos assustados e as luzes alaranjadas do passeio público conferem à sua figura um tom fantasmagórico, pior, confabulam nas sombras de seu rosto e projetam todo cansaço de quem luta impotente uma batalha perdida e, face ao medo de ter perdido quem ama, cede ao desespero.

***

Não alheios ao sofrimento, esses vizinhos oferecem a mulher histérica um copo d’água e, na ausência de um do maço, enrolam um cigarro de palha.

A mulher chora nos degraus da entrada da casa e repete entre lágrimas e ganidos, à essa altura já mais abafados, preces desesperadas e palavras de descrença.
– Ah meu deus, por favor, eu não acredito… Ele morreu; Mataram ele…

Coisas da vida?

Uma menina do grupo vai até lá e constata: O homem está vivo e desacordado. Ela conta as boas novas e Julieta aparenta tirar um grande peso das costas. Alguns minutos passam e ao ver que toda a situação está mais calma, ainda que, desfavorável, ela sai e vai à casa dos familiares do cativo avisar sobre o que se passa.


Continua…


Esse texto é o primeiro de uma série de cinco que contam a história da captura de dois assaltantes por suas vítimas.

A segunda e a terceira parte já estão disponíveis!

Acesse-as:

A captura da rua sem nome – #2: Lei

A captura da rua sem nome – #3: Zé

 

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Uma opinião sobre “A captura da rua sem nome – #1: Vingança

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