Notas I

Justiça, verborragia e senso comum – O homem que dizia muito e não falava nada – Tornando-se superficial em algumas palavras

Sensus commom

Tenho pensado um pouco sobre esses temas, o senso comum é algo que tem um poder grandioso no dia a dia das pessoas, os haters como fenômeno social estão aí para provar que, efetivamente, a máscara do anonimato encobre bem a face envergonhada das pessoas que precisam dos seus minutos de ódio diário para conviverem normalmente na sociedade. Não me lembro bem onde, mas recentemente li uma frase que foi atribuída a Nietzsche que soava algo como isso:

“- Em indivíduos, insanidade é raro; porém em grupos, partidos, nações e épocas, é a regra.”

Algo que faz sentido pra mim, talvez não para você, especialmente se você for o porta-voz de algum grupo organizado. E para você eu tenho más noticias: consenso e aceitação envolvem duas opções distintas: a) negociação, você negocia a sua posição para se encaixar em determinado grupo (e talvez se tornar porta-voz dele); b) você se guia pelo script de seu grupo ou deixa suas convicções em algum grau se esvaírem. Creio que o mais aconselhável nesse tipo de caso seja simplesmente tomar algum tempo para si e se tornar uma espécie de eremita. Lembre-se que seres excessivamente sociais tendem a ficar pouco tempo expostos ao seu próprio senso crítico, então, se for ceder para participar, saiba focalizar com precisão na sua opinião, de oque você está abrindo mão e qual a posição que a substituirá. Não seja besta ao ponto de simplesmente sentir que as coisas parecem erradas, às vezes elas podem estar tão erradas que alteram de maneira fundamental a legitimidade de sua participação em determinados grupos.

O problema é não ser 100% ou 50% cristão, pescador, ativista ou oque seja, o problema é não ter claro para si a relação entre você e seu grupo.
Não espere que os outros comam sua caça se você mesmo não quer.
Pense que ser liderado significa ser parte de um conjunto que pode ser extremamente ativo no papel de mudar o mundo, e que isso pode tirar sua liberdade de ir e vir intelectualmente — de se desvincular dos grupos e seus ideários -, à medida que você faz sua vida em decorrência das relações que se dão nesses espaços você se torna refém dos acordos de lealdade que criou. Todo mundo tem medo de perder oque tem, e principalmente de ser culpado por algo, especialmente ser livre.

O homem que dizia muito e não falava nada

Quando era menor meu sonho era ser alguém inteligente e com um vocabulário diferenciado.
Não sei se tive o sucesso que gostaria nessas tarefas até o presente momento (não vamos nos esquecer que inteligencia é um contínuo que caminha em direção a senilidade), tenho um vocabulário legal, posso me dar ao direto de abrir parênteses e escrever palavras difíceis nele (ui, que gênio palmas irônicas) e sempre consegui ter uma percepção particular das coisas até onde demonstrei interesse. Tenho dúvidas porém da utilidade da inteligência e da verborragia, ambas parecem ser algo relacionado a própria vaidade, um senso de que a estética esteja diretamente relacionada a capacidade de se narrar no mundo, porém, estas me parecem muito formulísticas.
Pense o seguinte: você pode parecer muito inteligente se souber sinônimos legais para expressões como, falar muito (verborragia), de agora em diante (doravante), a capacidade de fazer inferências é um belo recurso, mas as palavras podem fazer com que você cresça cada vez menos objetivo e mais incapaz de falar oque você efetivamente quer dizer.
Cuidado com os truques que a retórica pode pregar em sua própria cabeça, nenhuma língua é mais afiada e pré-disposta a nos enganar do que a nossa própria.
Gostaria de deixar claro que esse testemunho sobre o poder destruidor que o apreço pela sua retórica pode ter é uma questão não de empenho, mas sim daquilo que nós podemos perder quando colocamos o “falar bem” como ponto central da nossa vaidade. Todos devemos aprender a falar, mas com propósitos, não faça com que a estética seja seu foco, se não você corre o risco de se tornar superficial.

Tornando-se superficial em algumas palavras

O exemplo dos haters tem um poder muito grande quando colocamos em perspectiva nossas necessidades de aprovação e o apreço pela verborragia. Comumente encontramos pessoas disseminando o ódio e a discórdia de forma poética pelos feeds de nossas (às vezes) diversas redes sociais, “textões” de facebook, videos resposta no youtube e pequenos videos opinativos no twitter ou instagram onde as pessoas demonstram com orgulho o poder poético de seu ativismo em defesa das “causas justas”. vieses confirmatórios¹ espúrios criados a partir de pequenos nichos interpretativos em conteúdos geralmente mais amplos e complexos são usados para que o show da raiva e do ativismo mostre o quanto as pessoas estão efetivamente(?) engajadas na criação de um mundo mais conciso com os ideais que defendem.
Raramente vemos alguém ganhando popularidade e tração nas redes sociais por fazer perguntas que vão ao cerne da questão; quem gosta de idolatrar a dúvida que vá ver as póstumas discussões do provocações ou ler em um canto mal iluminado as lições de seus poetas mortos favoritos. Os gregos pareciam idolatrar a tragédia, logo, a dúvida.
O processo de dúvida e busca geralmente de respostas geralmente envolve mais cogitação, dúvidas e oferece uma figura geralmente desoladora sobre o quanto não sabemos sobre oque estamos falando.
Coloque em perspectiva que esse processo para ser considerado completo leva um tempo geralmente muito maior e mais significativo do que levamos para ler 144 caracteres de um tweet ou um artigo na Wikipédia e, geralmente, quando não guiado, pode nos oferecer um processo de exposição àquilo que nós evitamos ver e bloqueamos de nossas redes. A dúvida nasce da consistência das antíteses das nossas crenças, então se você for socialista, pode se sentir ameaçado se, de fato, os libertários tiverem um ponto forte e válido na defesa de seus ideais, lembre-se, os vieses devem ser claros e presentes para quem deseja ser verdadeiramente intelectual, pois a partir deles são discutidas ideias e não causos cotidianos que criam o futuro do seu mundo.
Por fim, gostaria de terminar com uma assertiva particular da minha vida:
Não seja idiota, se aceite como o idiota que sempre será e remedie isso como puder, talvez algo de bom saia disso.
Eu tento como posso.

—-
¹ Ver o cisne negro de Nassim Taleb

 

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