Caveiras e diplomas

Ser feliz, alegre e celebrar as vitórias pessoais. Celebrar as conquistas de outros mil que, assim como eu, passaram pelo mesmo trauma e pela mesma provação da qual eu acabei de me livrar. Comemorar, sim. Libertar o meu eu das amarras impostas pelas tarefas e pela excruciante rotina de quem busca muito algo. Deveria eu comemorar?

Do que vale um carro novo? Do que vale uma casa maior ou um diploma universitário?

Deveria eu ser feliz pelas conquistas e por isso comemorar? Ou talvez eu devesse simplesmente purgar as dores e angústias que a perseguição de objetivos me trazem?

Apresentar um trabalho, ter um carro ou se formar não fizeram mais por mim do que cumprir uma módica etapa na construção do futuro que eu desejo, no contexto em que eu posso. Deveria então eu comemorar e festejar?

A gaiola dourada, meus amigos, está sempre com sua pequena porta aberta aos que desejam nela entrar. Nela as luzes neon, e o piscar intermitente de holofotes coloridos ao som de algum beat eletrônico nos informam: Esqueçam-se de vocês mesmos, celebrem o objeto. Purguem a ausência de recompensa que mais um marco de suas vidas falhou em lhes oferecer.

O diploma não ofereceu o sucesso, o carro, não lhe fez sentir-se mais poderoso senão à aqueles que não conhecem a desilusão e o vazio do ter para mostrar. Não esqueça também você, meu caro, que não existe em sua grande casa ou na sua cobertura com piscina nada que a signifique. Lá, apenas a empáfia do seus achismos e os olhos sedentos dos estetas – que, diante de suas quimeras, suas limitações e sua própria impotência – que alimentam-se como zumbis de suas belas e ainda assim, dependências, cujas quais atribuem a sua perssonalidade. Como se fossem uma parte de você, e não os seus meios.

Não há vergonha em sofrer, quem dirá então, em purgar a angústia. Seriamos talvez uma sociedade melhor se ao invés de dizermos que somos felizes para que todos expressem a aprovação de nossas vidas, simplesmente disséssemo-nos aliviados ou simplesmente alegres. A falsa felicidade do mundo me enoja, o hype do cinismo e o culto ao exagero, me deixam triste porque sou humano, sou solitário e como todo homem que tem algum conhecimento de si, incompleto.

Talvez o silencio das noites em claro tenha algo mais a nos dizer do que simplesmente que precisamos de mais daquilo que nos ocupa. Talvez a inquietude do silencio da noite sirva para nos mostrar que falamos mais ao mundo pois queremos ser aquilo que parecemos, pois não suportamos ser o que propriamente somos.

Talvez um pouco antes do final, antes de virarmos pó e de perdermos o renovar do mundo, possamos nos dar conta de que somos aquilo que encaramos no silencio das incomodas noites solitárias e pensativas que passamos em claro. Não as pessoas alegres que posam para fotos, fantasiadas, travestidas como nossas próprias nêmesis.

Tenhamos nós a humildade de sermos aquilo que sentimos e fazemos no dia-a-dia. Sejamos nós mesmos, honestos, pois o nosso fardo é sim tão duro quanto o sentimos, e estamos sós para carregá-lo. Sejamos mestres do nosso presente e guias da nossa vontade, atuar para receber a aprovação do mundo nada mais é do que render nossa própria vida a um papel de figurante no teatro do mundo alheio, sem que nesse período escrevamos sequer uma linha com significado na nossa própria história. Sejamos o que somos e façamos assim por que queremos, tornemo-nos senhores de nossa própria vontade que, por fim, o livro não estará em branco.

Que o fim seja silencio e não mais palavras, palavras, palavras.

Com a caveira na mão.

Cambio e desligo.

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