Retifica mecânica e outros frutos pomar

Sim amigos, eu vou falar sobre ela, a grande, poderosa e verdadeira laranja mecânica, não aquela que a maioria de vocês cinéfilos e serial watchers conhece, eu falo da verdadeira e completa laranja de Anthony Burgess que em sua edição especial de 50 anos ganhou uma belíssima edição especial feita pela XXXXXXXXXX que acompanha, além de tudo, um caderninho muito horrorshow de brinde.

Sinopse

Ludwig van – ultraviolência e juventude – escolha a besta menos antipática – meu inimigo Ludovico – O garoto atrasado – O que você não sabe se só viu o filme.

Um jovem ultra-violento e sua trupe de druguis (amigos) andam pelas ruas de uma cidade qualquer praticando atos de ultraviolência no topor do uso de substâncias entorpecentes com o objetivo de se divertirem e passarem a noite. Alex, o líder dessa gangue e amante da música clássica coordena ataques a velhos, adultos e crianças indefesas os quais roubam, estupram e dão grandes surras, até que um desses crimes é descoberto pela policia, que encontra Alex sozinho na cena de um crime que culminou no assassinato de uma velha senhora que resistiu às suas crueldades. Alex é então capturado e enviado para a prisão e, inconformado com o abandono por parte de seus druguis, torna-se um jovem solitário e amargurado.

Ultraviolência e Juventude

Durante sua estadia na prestata Alex ganha a simpatia do chapelão da instituição e se torna algo como um coroinha VIP das pregações, porém, quando da chegada de mais um companheiro para sua já abarrotada cela que tenta intimida-lo e tomar sua cama, ele e seus companheiros de cela o agridem no breu da prisão até que nosso protagonista acabe por dar o golpe de misericórdia nesse trombadinha infeliz. Novamente sendo culpado sozinho e abandonado pelos companheiros Alex recebe uma proposta tentadora, comutar os dois anos restantes de sua pena por um tratamento de condicionamento comportamental experimental e ser solto depois de quinze dias de volta a sociedade.

Meu inimigo Ludovico

Como todo jovem inconsequente e avido por liberdade Alex prontamente aceita os termos desse acordo e, após algumas despedidas melancólicas, em especial do chapelão, – que bêbado falava sobre crimes contra a vontade de deus e da liberdade dos homens – finalmente é introduzido a técnica Ludovico. Como todo adolescente ao qual é oferecido uma alternativa imediatista, Alex crê que fez um grande negócio e que essa tal técnica vai deixa-lo voltar rapidamente a sua antiga vida. 

Alex inicia então o tratamento, que consiste em injeções diárias de uma substância que causa mal-estar e a subsequente exposição a imagens de ultra-violência e abusos contra homens, mulheres, jovens e crianças.

Com o passar do tempo, nosso jovem protagonista começa a associar a exposição a atos ou cenas desse gênero com o seu mal-estar físico. Conforme o tratamento avança, é criado em seu âmago uma associação entre o mal-estar e atos de violência.

Apesar de, até então, não “quebrar seu espírito” as cenas violentas começam a lhe serem mostradas juntamente com uma trilha sonora que consistia em seus músicos favoritos. Diante do atentado contra àquilo de belo que ama e de sua nova e crescente incapacidade de apreciar seus discos de orquestras, Alex começa a enlouquecer e se tornar uma vítima clássica das distopías, perde tudo o que ama e que o completa. Não mui amigo, Ludovico.

Quinze dias depois Alex é solto para o mundo novamente, apenas com seus pertences pessoais e um punhado de dinheiro fornecido pelo estado, para que se locomova e não morra de fome ele então ruma para casa e descobre que perdeu todos os seus pertences, inclusive seu amado estéreo. Seus pais haviam locado seu quarto para um inquilino e não o esperavam ve-lo novamente em ao menos dois anos. O inquilino inclusive parece ser mais filho para eles do que o próprio Alex.

Sozinho sem teto e novamente sentindo-se traído Alex vais às ruas novamente, onde é parado por ex-parceiros que acabaram se tornando policiais e aproveitam a deixa para leva-lo para longe e surrá-lo como uma pequena vingança pelos velhos tempos.

Esculhambado, fodido e com frio ele caminha em direção ao vilarejo nas redondezas em busca de abrigo, e o encontra na casa de um escritor e ativista politico solitário que o acolhe por ser a famosa vitima de condicionamento social.

O F. Alexander, escritor solitário vive há algum tempo em uma grande e aconchegante cabana sozinho, desde que perdeu sua esposa (em um ataque de jovens mascarados) e trata Alex como um convidado de honra. Em troca, exige que Alex assine um texto de sua autoria falando sobre as torturas que Alex tinha sofrido para ele durante o seu tratamento e participar de alguns atos políticos contra o Governo daquele lugar.

O garoto atrasado

Alex é um garoto sem recursos, e o “tic-tac” do relógio não estaria também ao seu favor. Talvez o único fosse a sua atual saúde física, a qual os membros do partido acham um pouco excessiva para que os seus relatos tenham um impacto total sobre o público.

Alex sabe que foram ele e seus druguis que espancaram, estupraram e mataram a esposa do escritor e, conforme constata que se trata da mesma pessoa que ele maltratou a tanto tempo, ele tenta manter-se calado sobre isso, porém, com o passar do tempo, sua inocência e ausência de papas na língua acabam por dar a pista para o escritor que começa e desconfiar de seu convidado.

Eventualmente outros companheiros de partido acabam entrando em cena e oferecem um apartamento para Alex habitar e o deixam só para que descanse um pouco.

F. Alexander que a essa altura já havia saído de cena e se que encontrava perturbado com a constatação de que Alex era o um dos assassinos de sua esposa oferece ao pequeno Alex uma dose “revigorante de música clássica a todo pau” em seus pequeno apartamento que estava trancado por fora. Desesperado então, Alex decide se matar e se atira da janela de seu apartamento.

Infelizmente para si sua tentativa de suicídio não teve muito sucesso. Novamente ele estava só e atrasado demais para se redimir com as pessoas. Contudo, a patética cena de seu corpo espatifado no chão em meio a uma poça de sangue é a imagem perfeita que F. Alexander e seus correlegionários precisam para causar uma onda de contrariedade para com as novas técnicas de pacificação do governo, Alexander teve um gostinho de vingança e o partido a mídia que queria. E agora Alex não passava de um saco de ossos atirado em uma cama de hospital, cuja a trajetória servia para apenas garantir que, onde quer que fosse naquela maldita cidade, sempre teria alguém querendo vingança o perseguindo sem sequer ouvir o seus apelos de clemência forçados.

O que você não sabe se só viu o filme

Alex, após lutar por sua vida acaba recuperando-se e, novamente, é usado como uma mera ferramenta de propaganda. O governo temeroso das consequências que esse episódio de tentativa de suicídio poderia  ter nas próximas eleições prontifica-se a reverter os efeitos da técnica Ludovico e, em compensação a todo o sofrimento causado em Alex, oferece um ótimo emprego para Alex no setor de música. Alex aceita a oferta e ao se recuperar volta brevemente para a sua antiga vida de roubos e ultraviolêcia contra os desvalidos e depois de alguns dias encontra-se desencantado com o seu antigo mundo e com vontades diferentes.

Ao debandar de uma noite de peripécias violentas com seus novos druguis Alex vai até um café e senta-se perto de um casal apaixonado que come e conversa. Ao dar uma olhada mais atenta Alex reconhece Pete, um de seus antingos druguis, que agora estava casado e pensando em ter filhos. Alex, chocado com essa visão, percebe que seu desencanto e sua crescente solidão tem muito a ver com aquilo que sua antiga vida não o permitia ter, conexão, amizade e amor. Então sozinho depois que Pete e sua esposa partem Alex decide que deseja ter uma família e ter um filho. E é nesse instante que a história do jovem e violento Alex termina, tanto nas palavras de Burgess quanto na vida de seu personagem.

Esse capítulo estava ausente de diversas  edições de A laranja mecânica que foram vendidas nos Estados Unidos por decisão de um Editor de Burgess que considerava o final do livro “muito inglês, e foi essa versão ausente que chegou às mãos de Stanley Kubrick e que foi adaptada para o cinema e que a maioria de vocês conhece como “A famigerada Laranja Mecânica”.

Um Breve comentário de um leitor distraído

A corda solta – O requinte estatal – Sobre as engrenagens e o sumo – Os acessórios textuais – O valor da leitura

A corda solta

A laranja Mecânica, o livro, é uma obra distópica que aborda diversos temas clássicos e bebe diretamente da fonte literária dostoiéviskiana e  de todos os seus questionamentos acerca da liberdade dos homens. Como o próprio autor admite, o livro trabalha diretamente essa questão da importância do livre-arbítrio e serviu como uma pequena e divertida mensagem contra o ascendente behaviorismo representado como nêmesis de Burgess nas idéias de B. F. Skinner. Burgess como um católico praticante era defensor das ideias de livre arbítrio e criou em seu livro menos querido (a nível pessoal) um dos mais famosos e controversos personagens da literatura, sempre disposto a esticar a corda da liberdade individual por caminhos tortuosos. O excesso de violência como explica Burgess, é o mal necessário para que seu ponto seja levado a cabo e certamente o seu charme de Alex.

Alex, um vilãozinho de meia tigela, um sociopata sádico e mau é tornado vítima de um sistema que estirpa-lhe a vontade própria e sua liberdade, e cabe ao leitor a tarefa de decidir se em dado momento as provações de Alex são um ato de justiça e de vingança ou um ato soberano de tirania de um governo se vê capaz de controlar as pessoas e ditar como deverá ser o mundo a partir de então. Minha simpatia ficou do lado de Alex, que se torna uma ameba diante do poder da técnica ludovico e perde o direito que tem de apreciar o pouco de belo que vê no mundo.

Não me entenda mal, não é que eu ache que os atos desse jovem maluco não sejam dignos de duras penas. O problema todo reside exatamente na punição aplicada e como técnicas lavagem cerebral, e como todos nós sabemos, esse tipo de coisa é como a luta de Davi e Golias, só que sem ninguém estar certo. Explico, a pena imposta ao nosso “herói”, se fosse aplicada em termos decentes e sua pena se materializasse em forma de reclusão ou até mesmo qualquer tipo de punição física ou mental não seriam tão ruins desde que preservassem a capacidade de Alex de lutar contra o sofrer doe sua pena. A transfiguração de Alex em vítima na história se dá justamente em decorrência da perda de sua capacidade de decidir pelo o que acha certo, ou de maneira mais sucinta (e cult, pra você parecer um intelectual para seus amigos!), de exercer seu livre arbítrio, uma vez que ele é acometido de dores insuportáveis e toda vez que a situação ganha ares violentos ou mesmo potencialmente violentos, seja por parte de seus interlocutores ou mesmo de si, ao menor sinal dê violência ou mesmo do menor pensamento de atos violentos causam também náuseas no nosso(meu) herói(?).

Os requintes estatais

Se até agora eu não consegui convencer você de que o verdadeiro e maior vilão nessa história toda é o estado, considere os requintes cruéis que são aplicados no tratamento de Alex e que justamente a única coisa que amava, sua música, está agora pétreamente associada ao seu condicionamento comportamental como o maior reforço à sua nova repulsa por violência. Imagine você, ter o que mais ama ou mesmo, oque mais lhe dá prazer associado com oque mais lhe causa dor e oque lhe é mais intolerável. Uma casualidade cruel que torna o nosso maníaco ultraviolênto em mártir. Muito requintado…requintado, bruto e cruel.

Sobre as engrenagens e o sumo

Certamente o livro coloca o leitor diante de uma realidade muito cruel e oferece uma história onde a relação herói-vilão toma contornos muito pouco ortodoxos. Mesmo assim, o livro nos presenteia com uma narrativa rica e certamente nos oferece uma história distópica clássica. Sendo que a sua magia revolve em aproximar da realidade cruel da luta entre homem e sociedade, ambos doentes e desvirtuados da condição de docilidade característica do homem médio e civilizado do nosso tempo. A luta entre o sistema doente e o homem sádico nos coloca talvez diante de um dos retratos mais fidedignos de como uma distopía poderia realmente acontecer.  Não mais colocando o homem com um ator bom e vitimado dentro um sistema que opera em altíssimo grau de eficácia, onde o homem já está submetido e dócil aos Horrores de uma ditadura que parece sutil aos seus olhos, ouvidos e cultura. Ao contrário, a laranja mecânica representa a Ditadura científica em pleno desabrochar, in natura, nos seus primórdios, exatamente como poderia ser em nosso mundo: um experimento secreto que poderia ser feito real. Além disso, é justamente nessa aplicabilidade e na realidade da doença dos estado e na crueldade e maldade dos dissidentes da cultura padrão que reside todo o sumo da laranja, que sacia nossa necessidade de sermos avisados dos perigos do progresso científico sem a devida reflexão ética, ao mesmo tempo que Burgess nos lembra que a realidade não o produz os heróis perfeitos, e que tampouco a realidade se dá ao trabalho de produzir  narrativas ou trajetórias plenamente edificantes e/ou inspiradoras.

A mensagem final é de que o livre arbítrio é o que importa. E devemos produzir um espaço social onde possamos usufruir do que há para nós em termos de avanços tecnológicos sem ameaçar a nossa potência, nossa capacidade de decidir pela nossa própria vontade. Não somos santos, não podemos sequer ter a pretensão de ser, mas mesmo assim, devemos nos manter indômitos em face do poder de controle que podemos criar com o progresso cientifico que causamos. Olho vivo em seus espaços de ação

Os acessórios textuais

edição de 50 anos da laranja mecânica de Burgess nos brinda com ótimos e surpreendentes extras. Além do caderninho SEXY que o comprador ganha para fazer suas notas o to livro ainda trás uma série de extras, dentre eles estão imagens do original datilografado por Burgess, ilustrações do auto e alguns textos originais que tratam directamente sobre a laranja já e o sobre suas ideias iniciais, sua mensagem e seu processo de concepção . Os materiais extras nos proporcionam um acesso extremamente diferenciado ao contexto em que a obra foi criada, suas motivações e imagens iniciais. Os textos auxiliares nos brindam com toda a erudição e todo o contexto da criação dessa obra prima da literatura distópico, com especial ênfase no escopo de ideias que gerou o impulso criativo de trazer à linguagem um história tão crua brutal e possivelmente real para nosso mundo. Faço aqui uma menção honrosa ao texto “A condição mecânica” e afirmo categoricamente (se você achar por bem confiar no que digo, é claro) que os textos complementares existe tanto ouro quanto no texto principal, ou até mais. Sugiro então que você leitor faça uso dos acessórios de sua laranja tanto quanto do próprio texto em si, ambos serão leitura igualmente valiosas e prazerosas.

O valor da leitura

Se você é daqueles que reconhece na leitura algo de valor independentemente de oque está lendo, você definitivamente não está alinhado com a linha de raciocínio do humilde ser que lhe escreve. Creio que é fundamental para que o ato de ler seja valoroso primeiramente que o texto seja inteligível ao seu leitor, isto é, que o leitor entenda oque está lendo em termos suficientes para que a narrativa faça sentido.

Dito isso, creio que esse livro não é para você se a) você não consegue perceber oque o significado simbólico por trás dos atos dos personagens; b) se você não gosta de violência ou se tem estômago fraco; c) se histórias tristes te deixam irritado(a); d) se você não está disposto a pensar o mundo que o autor criou para sua história como um mundo real; e) Se você tem que entender tudo oque está sendo dito de maneira literal.

Se você não se encaixa em nenhum dos tipos de leitores listados acima eu acredito que a laranja mecânica vai com certeza ser uma leitura de valor e que vai certamente provocar reflexão sobre o mundo e sobre o valor de nossa liberdade, se você se convenceu que valhe a pena, boa leitura e um conselho: Mantenha-se aberto a idéia de que você não precisa entender os sinônimos das palavras nadsat de cór para entender a história. 

Câmbio e desligo.

 

 

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