Intelectual, mas idiota

Por Nassim Nicholas Taleb, traduzido por Gabriel Segundo

16 de setembro de 2016[A]

Introdução

Texto publicado por Nassim Nicholas Taleb em seu blog na no Medium. Original disponível em inglês em The Intellectual Yet Idiot. Tradução publicada em IIindex por Gabriel Segundo em 21 de fevereiro de 2017. A reprodução desse conteúdo é livre para todos os meios menos o Huffington Post (em todas as línguas), assim como o original em inglês, desde que cite a fonte do original.


Oque viemos acompanhando pelo mundo todo, da India até a Inglaterra passando pelos EUA, é uma revolta contra o núcleo dos fora-do-jogo, funcionários legisladores (fazedores de política) e jornalistas insiders, aquela classe paternalista de experts semi-intelectuais advindo de universidades de prestigio [B] ou qualquer outro tipo de educação voltada para o nome da instituição que estão dizendo para o resto de nós 1) o que fazer, 2) o que comer, 3) como falar, 4) como pensar… e 5) em quem votar.

Todavia o problema é os zarolhos seguindo os cegos: esses autoproclamados membros da “intelligentsia [C] ” são incapazes de achar um coco na ilha dos coqueiros, o que significa que eles não são inteligentes o bastante para definir inteligência que, portanto, cai em circularidades [D] -porém sua principal habilidade é passar em provas elaboradas por pessoas como eles. Com artigos de psicologia replicando menos de 40% das vezes [E] , dietas sendo desmentidas após trinta anos de gordura-fobia, análise macroeconômica tão confiável quanto astrologia, a indicação de Bernanke [F]  que estava totalmente sem noção dos riscos e os testes farmacêuticos que, na melhor das hipóteses, replicam em 1/3 dos casos, as pessoas são perfeitamente livres para se apoiarem em seus próprios instintos ancestrais e a ouvirem seus avós (ou Montaigne e tal conhecimento clássico filtrado) com um histórico melhor do que esses experts excêntricos.

Sem dúvida é visível que esses burocratas-acadêmicos que se sentem nomeados a dirigirem nossas vidas não são nem rigorosos, seja acerca de estatísticas médicas ou sobre legislar. Eles não conseguem diferir ciência de cientificismo– de fato, em suas férteis imaginações o cientificismo parece mais científico do que a própria ciência. (Por exemplo, é trivial mostrar o seguinte: muito do que pessoas tipo Cass-Sunstein [G] -Richard-Thaler [H]  – aqueles que querem nos “empurrar” em algum tipo de comportamento – muito do que eles classificariam como “racional” ou “irracional” (ou alguma dessas categorias indicando um desvio de um protocolo desejado ou prescrito) vem dos seus erros de compreensão da teoria da probabilidade e do uso cosmético de modelos de primeira-ordem.) Eles também são propensos a confundir o conjunto para agregação linear de seus componentes, como vimos no capítulo que versa sobre a (regra da minoria).

O intelectual mas idiota (IMI) é uma produção da modernidade que vem acelerando desde a metade do século XX para chegar no local supremum [I]  que atualmente habita, ao lado da larga categoria de pessoas fora-do-jogo que vem invadido vários campos da vida. Porque? Simples, na maioria dos países o papel do governo é entre cinco e dez vezes maior do que era à um século atrás (diferença expressada na proporção do PIB). O IMI parece presente em nossas vidas, mas ainda é um pequena minoria que raramente é vista fora de lojas especializadas, Think Tanks [J] , da mídia, ou das universidades – a maioria das pessoas tem empregos adequados e não há muitas vagas para IMIs.

Cuidado com o semi-erudito que pensa que é erudito. Ele falha em detectar sofismas naturalmente.

O IMI patologiza outros por fazerem coisas que eles (IMIs) não entendem sem mesmo perceber que pode ser que o seu entendimento que talvez seja limitado. Ele pensa que as pessoas deveriam agir de acordo com seus maiores interesses e ele sabe seus interesses, especialmente se “eles” forem “red necks” ou ingleses da classe dos “vogais-não-nítidas”  [K]  que votaram à favor do Brexit. Quando os plebeus fazem algo que faz sentido para eles mas não para o si, o IMI usa o termo “não educados”. O que nós geralmente chamamos de participação no processo político, o IMI chama de duas designações distintas: “democracia” quando se encaixa em seus interesses e “populismo” quando os plebeus ousam votar contra seus interesses. Enquanto os ricos acreditam em um dólar de imposto um voto os mais humanistas acreditam em uma pessoa um voto, Monsanto em um lobista um voto, o IMI acredita em Um diploma das grandes universidades um voto, com alguma equivalência para escolas estrangeiras de elite e PhDs, uma vez que esses são necessários para se fazer parte do clube.0C__Users_II_Desktop_IMI_img_1.png

Mais socialmente, o IMI assina o The New Yorker. Ele nunca xinga no Twitter. Ele fala de “igualdade de raças” e igualdade econômica” mas nunca foi beber com um taxista de outra raça ou algo do tipo (novamente o conceito de fora-do-jogo é algo fora da realidade para o IMI). Aqueles que vivem na Inglaterra vem sendo levados para um passeio com Tony Blair. O IMI moderno já foi à mais de uma palestra do TEDx e já viu um ou mais TED talks ao vivo ou no Youtube. Não só ele votou na Hillary Monsanto-Malmaison porque ela parecia elegível em algum raciocínio circular, mas afirma que quem não fez isso é mentalmente doente.

O IMI tem uma cópia de capa dura da primeira edição de o cisne negro na sua prateleira, mas confunde a ausência de evidências com evidências de ausência. Ele crê que OGM (Organismos Geneticamente Modificados) é ciência e que “tecnologia” não é diferente da criação convencional como resultado de sua prontidão em confundir ciência com cientificismo.
Tipicamente o IMI abstrai corretamente a primeira parte da lógica, mas não sem eventos de segunda ordem (ou superiores) tornando-o totalmente incompetente em domínios complexos. No conforto de sua casa suburbana com suas garagens para dois carros, ele advogou a deposição de Ghadafi porque ele era “um ditador”, sem perceber que deposições tem consequências (lembre-se que ele está fora do jogo e não sofre as consequências).
O IMI tem estado, históricamente equivocado, sobre o stalinismo, maoismo, OGMs, Iraque, Líbia, Síria, lobotomias, planejamento urbano, dietas com baixa ingestão de carboidratos, aparelhos de ginástica, behaviorismo, gorduras trans, freudismo, teoria do portfólio, regressão linear, Gaussianismo, Salafismo, modelagem estocástica de equilibrio dinâmico, projetos de habitação, Gene Egoísta, modelos de previsão de eleições, Bernie Madoff (pré-descoberta), e valores p. Mas ele está convencido que sua posição atual é a correta.
O IMI é membro de um clube que obtém privilégios de viagem; Se um cientista social usa estatísticas sem saber como elas foram derivadas (como Steven Pinker e psicólogos no geral); Quando na Inglaterra, ele vai a festivais literários; ele bebe vinho tinto com carne vermelha (nunca vinho branco); Ele costumava acreditar que gordura fazia mal à saude e agora acha o exato oposto; Ele toma estatina pois seu médico mandou; ele falha em entender ergodicidade quando lhe explicam, ele esquece isso mais cedo ou mais tarde; ele não usa palavras iídiches quando fala de negócios; ele estuda gramática antes de falar uma língua; ele tem um primo que trabalhou com alguém que trabalhava com alguém que conhecia a rainha; ele nunca leu Frederic Dard, Libanius Antiochus, Michael Oakeshot, John Gray, Amianus Marcellinus, Ibn Battuta, Saadiah Gaon ou Joseph De Maistre; ele nunca se embebedou com russos; ele nunca bebeu ao ponto em que alguém começa a quebrar copos (ou cadeiras, de preferência); ele não sabe sequer a diferença entre Hecate e Hecuba (oque no dialeto do Brooklyn quer dizer que eles não sabem diferenciar “lixo do luxo” [L] ; ele não sabe que existe uma diferença entre “pseudointelectual” e “intelectual” quando se está “fora do jogo”; Mencionou mecânica quântica ao menos duas vezes em conversas que não tinham nada a ver com física.
 
Ele sabe à qualquer momento oque suas palavras ou ações estão fazendo com sua reputação.
 
Mas um marcador mais fácil: Ele nem sequer passa trabalho.
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Um não IMI

Postcriptum:

Pelas reações que venho tendo à esse texto, eu descobri que o IMI tem dificuldade, enquanto lê, em diferenciar o satírico do literal.

Postpostscriptum:

O IMI pensa que essa crítica aos IMIs signigica que “todos eles são idiotas”, mas não percebem que seu grupo representa, como dito, uma pequena minoria – mas eles não gostam que seu senso de razão absoluta seja desafiado e, embora tratem o resto dos seres humanos como inferiores, eles não gostam quando a maré vira contra sua direção (oque os franceses chamam de arroseur arrosé). (Por exemplo, Richard Thaler,n parceiro do perigoso advogado OGM Übernudger (Mega-pestinha) Cass Sustein, interpretou esse texto dizendo que “não há muitos não-idiotas não chamados Taleb”, sem perceber que pessoas como ele são <1% ou mesmo .1% da população.)

Post-Post Postscriptum

Escrito após a surpreendente eleição de 2016; o capitulo acima foi escrito vários meses antes do evento). A eleição de Trump foi muito absurda para eles e não se encaixa por uma margem tão colossal em sua visão de mundo que eles falharam ao procurar instruções nos seus manuais de como reagir. Isso foi exatamente como ver alguém pregar uma peça nele e ver sua expressão petrificada, sem saber como reagir.
Ou ainda, imagine a expressão, os olhares e gestos de alguém que pensou que estava em um casamento feliz voltando para casa mais cedo e ouve sua esposa gemendo na cama com o porteiro.
Praticamente todas as previsões, subprevisões, superprevisões, cientistas políticos, psicólogos, intelectuais, militantes, “consultores”, analístas de big-data, tudo oque eles saibam foi instantâneamente provado ser uma farsa. Então meu malicioso sonho de colocar um rato dentro da camisa de alguém (como expressado no cisne negro) de repente se tornou realidade.

Notas de rodapé

[A]: Data da publicação do original em inglês.
[B]: N. do T.: tradução da expressão original “[…] that class of paternalistic semi-intellectual experts with some Ivy league […]
[C]: Expressão utilizada pelo autor, entenda-se intelectualidade.
[D]: N. do T.: tradução da expressão original: “[…] meaning they aren’t intelligent enough to define intelligence hence fall into circularities  […]“.
[E]: N do T.: Como deixei claro anteriormente estou em meio a um projeto que tem como objetivo o *aprendizado* e, naturalmente, não compreendo algumas expressões da lingua inglesa. Nesse caso assumo que *replicar* significa obter resultados semelhantes em experimentos científicos. Essa conclusão foi feita através da uma inferência(desse documento).
[F]: Ben Bernanke que em 2006 foi indicado para presidir o FED sem ter quase nenhum histórico palpável em qualquer cargo público. O episódio ao qual se o autor se refere foi a nomeação de Barnanke para a presidência do conselho econômico do governo Bush, que serviu para testar a aceitação do seu nome para uma futura nomeação para a presidência do FED.
[G]: Cass Robert Sunstein é um advogado norte-americano que atua nas áreas de direito constitucional, direito administrativo, direito ambiental e direito e economia comportamental. Foi o administrador do Escritório da Informação da Casa Branca e Regulatory Affairs na administração Barack Obama de 2009 a 2012. Por 27 anos, Sunstein ensinou na Faculdade de Direito da Universidade de Chicago. Sunstein é o atual professor da Universidade Harvard. Citado pelo autor por ter publicado uma extensa gama de artigos e livros que versam sobre risco, direitos humanos, saúde e política.
[H]: Richard H. Thaler é um economista Ph.D. pela universidade de Rochester que estuda economia comportamental e finanças, com interesse especial em psicologia da tomada de decisões co-autor de um livro com Cass Sunstein sobre psicologia e economia comportamental chamado Nudge: Improving Decisions about Health, Wealth, and Happiness onde realizam propostas de cunho libertário sobre assuntos como finanças, saúde, educação e até casamento.
[I]: Grifo do Tradutor.
[J]: Diz a Wikipédia: Think tanks são organizações ou instituições que atuam no campo dos grupos de interesse, produzindo e difundindo conhecimento (ideologia) sobre assuntos estratégicos, com vistas a influenciar transformações sociais, políticas, econômicas ou científicas sobretudo em assuntos sobre os quais pessoas comuns (leigos) não encontram facilmente base para análises de forma objetiva. Os think tanks podem ser independentes ou filiados a partidos políticos, governos ou corporações privadas. Alguns exemplos no Brasil são o instituto (Mises Brasil)(que tem como objetivo propagar a ideologia da escola austríaca de economia) e a (fundação Perseu Abramo) (que tem como objetivo difundir a ideologia que embasa as políticas apoiadas pelo partido dos trabalhadores).
[K]: N. do T.: Do original: “non-crisp-vowel class”. Uma associação possível de se fazer é com o modo cockney de fala dos ingleses, típico de pessoas da classe trabalhadora.
[L]: N. do T.: Do original “(which in Brooklynese is “can’t tell sh**t from shinola”)“.

Disclaimer:

O texto acima reproduzido não é de minha autoria, sendo creditado a Nassim Nicholas Taleb, matemático, escritor e investidor. A reprodução do texto no blog não necessariamente implica que concordo com o seu conteúdo, mas que o acho válido seja à titulo de reflexão ou a título de apreciação. Não respondo pela ideologia do autor, porém acredito que o debate saudável é sempre positivo. Não sou tradutor profissionalportanto, se você achou algum erro, ou algo que pode ser melhorado na tradução entre em contato pelos comentários que prontamente avaliarei as correções sugeridas.

Ademais, recomendo a todos que forem capazes de ler em língua inglesa que sigam o blog de Taleb no Mediu chamado Incerto no link a seguir: https://medium.com/incerto

Se você gostou do texto e, por algum motivo deseja ter uma cópia dele para chamar de sua, você pode fazer o download da versa em PDF da versão bonitona no link abaixo.
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