Diários vadios

Marrakesh, 9 de fevereiro de 2013

Meu quarto

Coisas estranhas acontecem, pois criei arranjos estranhos para mim.
Pensar que me tornei vitima de um arranjo doentio que eu mesmo nutri, não faz muita coisa por mim, além de me deixar completamente decepcionado. Não que eu devesse sentir alguma coisa, apenas me senti derrotado em um jogo que eu fiz uma força além das minhas capacidades para ao menos competir.

E pensar que tudo isso se deu talvez não por vontade ou prazer, mas sim pelo mais simples desespero.

Desespero meu que, à despeito de toda a dor e todo o sofrimento que me causa, me faz  continuar acreditando na redenção das pessoas através da gentileza. Mesmo que o mundo talvez precise de mais pessoas dispostas a gostarem umas das outras e compreenderem-se ao ponto de aceitar que todos tem o dever moral para si, de se manterem integros e honestos e gentis para o mundo e para as pessoas.

Sim, todos os movimentos e todos os gestos que me trouxeram até esse ponto são de minha responsabilidade e de mais ninguém. Tenho culpa tanto de ser, talvez, inocente demais e de ao mesmo tempo esperar algo tão genuíno e precioso de pessoas embrutecidas pelo egoísmo alheio de daqueles que os cercam e o narcisismo inerente aos seus universos conhecidos.
Não, não me sinto fracassado. Por que deveria?

Me sinto insatisfeito, cansado e triste por não conseguir, ao passo que o mundo gira e o relógio não para, seria como puxar o gatilho, simplesmente esperar que os planetas se alinhem e que o universo me dê aquele tapa nas costas de consolo e o incentivo de que persistir, à despeito dos monstros e das aberrações que pisam em “nós” (a solidão é senão pois uma impossibilidade, não…) é a solução viável.

Por mais que não seja efetivamente velho, me sinto assim, velho demais para desistir dos meus pálidos ideais. Aqueles que vêm o jovem desgarrado e desleixado como uma pessoa que desistiu de si ignoram que a vaidade de um homem pode também residir em seu próprio orgulho e crenças e que talvez a vaidade do intelecto seja o próprio veneno que causa a rabugísse das palavras e dos versos daqueles que as proferem em defesa da sua “consistência existencial”.

Seria eu o filósofo mais sem pontos de toda a história?

Seria eu o mais “enrolador” que o meu tempo já viu?

Como posso destilar meu amargor e consagrar o meu desprezo (a mim) de forma tão genérica que não se faz possível entender oque houve?
As palavras do pseudônimo de Pessoa hoje falam comigo, como se o aroma adocicado do fumo que embebesse meus pensamentos, e tornasse infinitamente mais vívidos os cenários de tragédia, que por vontade de comédia traço para mim com os minutos já desperdiçados de minha vida.

Não sou nada.

Não posso querer ser nada.

À par disso tenho em mim todos os sonhos do mundo.

E é sim na penumbra escarlate de um canto escuro do meu quarto que resolvo acessar os CAMPOS, recolher meus propósitos, cheios de putrefação debaixo dos calcanhares, paus, pedras e homens que se dissolvem com o caminhar rasteiro e direto dos ponteiros do relógio do tempo.

Amanhã

Amanhã

E ainda outro amanhã…

Amanhã será por fim o dia do fim, e o fim, que será para mim o fim e para quem do fim não faz parte, mais um rabisco borrado no canto das páginas amareladas no manual de instruções da vida humana, e toda a fibra, todo o sangue e o suor se desfarão, assim como os versos e as tabuletas e a própria língua das peças dos realmente dotados e talvez o universo e o próprio (desconhecido) deus que o comanda.

As caveiras que não falam, sussurram em seu processo de decomposição que o durante não importa, ou que só importa para si.

Provavelmente certo.

Terrivelmente real.

Mas de que uso me pergunto?

Eu, você e quem quiser que exista que vá para o inferno com sua insignificância e seus pequenos propósitos, seu niilismo desconcertado e vadio, que pelas linhas tortas de um durante pleno gasta seu tempo embriagando-se em uma linha reta, perdendo de ser para si e para mim o seu motivo de ser.

Sou pois sou meu próprio durante. E por ser isso, continuarei sendo eu. A despeito de o quanto tiver que pagar por isso.

PANEA TEGYDEH

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