Bençãos?

Bênçãos, dádivas, milagres, concessões divinas ou mesmo superiores. Resultados, recebidos por um suposto merecimento, correto?

Mesmo que sejam e existam, não seriam as bençãos simplesmente um pedido de desculpas?

Desculpas.

Pela dor, pela angústia, pela agonia que enfrentamos, pelas perdas, pelas lágrimas que derramamos em nome do convencimento de que teremos alguma recompensa. E no fim, no apagar das luzes, no selar do caixão, no retornar à rotina, há aqueles que acreditam piamente que até os menos afortunados, os miseráveis, os infelizes, os acometidos pelas dores de uma existência que, fora da nossa percepção, da nossa gaiola dourada, não nutre nenhum tipo de senso de justiça, terão a redenção prometida pelos belos contos dos homens de boa índole.

Pergunto mais uma vez,

Bênçãos? Para quem?

Se existem as bênçãos meus caros, elas não passa simplesmente de um pedido de desculpas do acaso, ou do que quer  que você acredite. Afinal, o dom da consciência e do tempo é exatamente aquilo que nos torna humanos e que nos condena a um transitoriedade consciente, que serve para angustiar aqueles que de nós não são abençoados o bastante para fazer valer o seu tempo naquilo que desejam, ou em algo que, ao menos não lhes inflijam dor e sofrimento. O mundo sempre foi abençoado para aqueles com sorte de estarem nesse grupo, oque não implica que todos estejam nele. Parem de chamarem-se uns aos outros de abençoados, pois a consciência que lhe permite viver na plenitude do seu hedonismo intrínseco priva diversos homens e mulheres que são perseguidos pela suas incapacidades e esmagados pela mesma consciência do esvair dos tempos e o constante do sensacionalismo explicito daqueles que se esmeram e se concentram em maquiar suas vidas para significarem os pequenos momentos de alegria que se seguem após duros dias de labuta.

Essas bênçãos me parecem mais um pedido de desculpas. Não há gatos, cães ou aves abençoadas, pois aquilo que nos torna dignos da piedade divina é exatamente a consciência de que o amanhã é finito, como os grão de areia, que caem na parte inferior da ampulheta. Somos mortais, amaldiçoados não pelo fardo, mas por nosso dom da percepção do fenômeno do esvair dos tempos. Vivemos loucos e infelizes, correndo atrás de objetivos, sonhos e deveres que nos esmagam como algozes da nossa livre iniciativa, de nossa liberdade. E ainda assim nos prestamos a acreditar que nós que escolhemos nossos objetivos, somos os loucos, aqueles que diante do inaceitável, escolhem amar sua servidão.

Somos tolhidos de muitos dos prazeres da existência, esmagados e por isso sofremos as consequências da nossa falta de percepção, da nossa cegueira.

Talvez fôssemos todos mais humanos se nos libertássemos dos holofotes sob os quais decidimos nos colocar, o mundo é um lugar difícil e triste. A vida, vazia e sem sentido e justamente aí reside a esperança de um mundo mais tolerável.

Um mundo onde as pessoas se tratam como pessoas, onde não há espaço para a náusea dos papéis ou para os atores do dia a dia. Não há espaço para que joguemos joguinhos e para que ao mesmo tempo sejamos honestos e compreensivos. Não temos tempo, não temos sentido. Não temos o que temer, tampouco o que perder. Não temos um propósito e nem um sentido, não temos nada. Nem mesmo a tragédia da ausência de sentido, pois fora de nós, dos nossos símbolos, significados, sentenças, histórias, papéis, e costumes, há apenas um ser só, significando aquilo que não mais existe. À frente, ainda nada veio a existir. Somos um ponto, um andarilho em uma  trajetória onde a erosão apaga nossas pegadas no instante que terminamos de marcá-las, que não vê para onde vai e pouco sabe de onde está pisando, temos a nós e nossos agoras que, constantemente viram antes e nos abandonam ao seu bel prazer. E mesmo essa triste assertiva não nos diz nada, uma vez que dentro da ausência de própisito e da solidão do existir, há apenas a ausência de sentido e de motivos, a vida não significa nada e isso, nada significa. Somos livres, somos agora e nada mais. As bençãos que permitem a uns terem um passado melhor do que o de outros não mais existem, tudo o que há é o acaso e a injustiça de um mundo que nos induz a nos colocarmos sob os holofotes de um momento da história que está brutalmente alheio a nós. Não há nada de errado aqui. Somos os resultado, um ponto de luz, criado da mais pura e opaca escuridão. Somos apenas o concretizar do transitório e do infortúnio alheio aos olhos de outrem que, sem ter de onde vir e para onde ir, persiste nas histórias e no passado que não mais há.

Paremos de olhar o mundo das lentes do nosso papel, cubra-se a visão daqueles que cegos pelo clarão dos holofotes estão cegos e fiéis ao conceito de justiça e complexão existencial. O que há é a falta, a dor, o ser e a injustiça sem porquês nem motivos.

Apreciem ao menos por um instante o que há de belo no viver.

I’m out.

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