Talvez eu não devesse desistir de tirar fotos

Olá, bem-vindos (alguém por aí? hey?) a mais uma tentativa.

Não tenho boa memória. Nunca tive. Ainda mais chegando a vida adulta. Comecei a torrar entre outras coisas os neurônios que tenho e piorar ainda mais a minha memória. A vida adulta tem dessas coisas, nos joga numa rotina que nos absorve e nos torna vitimas dela. Diariamente somos atropelados pela avalanche de tarefas, problemas e dilemas que nos lacram em uma gaiola “dourada”, onde quase não sentimos o tempo passar até que começamos a perder as coisas que nos são mais caras.

Nossa memória piora, nosso corpo lentamente entra em declínio e começamos a olhar o passado com um certo saudosismo, isso claro, quando não o armazenamos em um canto escuro e de difícil acesso da nossa memória.

Sobre esse tema, eu gostaria de falar de maneira mais pessoal e menos literária. Como um desabafo, se assim quiserem nomear, que seja.

Ontem encontrei entre minhas anotações do OneNote uma que me chamou especial atenção, era um texto que eu tinha escrito exatamente às 18:51 de uma segunda-feira, mais precisamente dia 23 de junho de 2014. Talvez minha ultima viagem realmente relevante ou pela qual guardo algum tipo de sentimento. Isso em ordem cronológia, é claro.

Esse registro me trouxe diversas lembranças e me fez pensar um pouco sobre diversos temas, desde a maneira como escrevo até sobre memória, por isso, coloco ele na integra abaixo, com duas das três imagens originais. O wordpress é terrivelmente cansativo quando se trata de organizar imagens.


Retorno de Cuiabá

WP_20140623_007

Trecho do desvio

Nos perdemos no interior do Paraná graças a o maravilhoso gps do pai, porém, isso está tornando a viagem muito legal. Graças a esse erro já conhecemos cidades como Verê, são Jorge d’oeste, dois vizinhos e também a famosa pato branco.

Graças a uma direção tomada errada antes de são Jorge d’oeste chegamos a pegar um trecho de estrada interditada  (graças a uma barreira de contenção que caiu) seguido por um trecho alagado de estrada no qual se necessita de uma balsa para se atravessar. Ao fazer o caminho inverso porém, chegamos a estrada correta e essa nos deparamos com algumas árvores tombadas que ao serem passadas pelo carro que nos transporta se depara com uma estrada sem acostamento e com muitas (mesmo) curvas acentuadas sem muitas áreas de escape, oque só foi amenizado em alguns trechos entre Itapejara do Oeste e Pato Branco.

 

WP_20140623_010

Usina hidrelétrica pela qual passamos sobre


 

À despeito da linguagem coloquial e da generalidades das informações, eu me sinto conectado com essa pequena nota por diversos motivos, primeiro por ter marcado talvez uma das poucas vezes em que eu consegui realizar algo que realmente eu gostaria: um diário com imagens, que servisse não só para realmente se lembrar, mas para recordar momentos efetivamente e nisso, esse excerto realmente conseguiu se relacionar comigo, as imagens deram vida a atmosfera em que eu estava e me colocaram diante da pessoa que talvez eu fosse naquele momento, pois ativaram minhas memórias.

Obviamente, nenhuma viagem genérica coloca uma pessoa como eu em plena reflexão sobre o que quer que seja só por que me lembra de momentos bons (sou preguiçoso). Essa foi talvez a única oportunidade que eu tive de aproveitar a companhia do meu irmão, que viria a falecer alguns meses depois. Ele tinha se afastado de mim e dos meus pais há uns anos e tinha decidido voltar ao convívio social mais intenso e retomar laços afetivos conosco, o que transformou aquela época, em um momento onde eu nutria esperanças de um futuro mais brilhante em termos familiares. Torcendo pelo melhor.

Mas como nem tudo são flores e a existência insiste punir com suas maldades (casualidades infelizes) aqueles que nela persistem, esse relato ressignificou-se diversas vezes na minha cabeça e com o passar do tempo.  As vezes pelas quais passei por ele depois do acidente acabaram por me causar as mais diversas reações, desde às lágrimas de inconformidade, dor, saudade e outros sentimentos melancólicos – desde aqueles causados pelas perdas, até os dias genericamente ruins que tenho -até os sentimentos de esperança, saudade e gratidão que apresentam-se nos dias  mais alegres e positivos, porém, dessa vez, além dos sentimentos mais costumeiros, esse texto me fez pensar sobre a importância do ato de escrever e fotografar as coisas – note-se aqui, quando não há alguém para fazer isso, obviamente – é uma maneira especial de registrar os momentos e salvá-los dos cantos escuros da minha memória, evitar que virem pó. Por isso fico pensando se não seria uma boa ideia no fim das contas registrar os momentos realmente especiais com mais cuidado, relatá-los com mais esmero.

À despeito da minha baixa (íssima) autoestima, da minha aversão a me registrar. Talvez seja uma maneira de me salvar temporariamente das areias do tempo, me perpetuar na matéria estéril, nos bits de uma foto, nos GARRANCHOS de um rascunho em um diário, talvez seja útil para mim ou para alguém algum dia, sei lá.

Tantos lugares eu pude visitar e nenhuma ideia do que eu fiz eu tenho, algumas fotos dão  pistas interessantes, algumas linhas ideias de itinerários, porém, nada melhor do que o cuidado de um texto com o suporte de algumas imagens para nos transportar de volta aos lugares que visitamos e que levamos conosco no nosso subconsciente. Lembrar das nossas versões mais antigas é também uma forma de rever nossos “eus” do passado, nossos contextos e compará-los ao presente. Uma ferramenta de aprendizado individual talvez.

Só sei que talvez ter tirado uma foto com meu irmão durante aquela viagem pudesse ter gravado de maneira mais explicita aquele momento, ter me sujeitado a minha própria face na frente de uma tela ou nas cores de um pequeno quadro talvez fizessem eu recriar com mais precisão as memórias da sua companhia.

Não sou arrogante e resoluto a ponto de acreditar que não tenho arrependimentos e erros que marcaram minha trajetória, seria mentira da minha parte dizer que não gostaria de ter escrito mais, registrado mais o que fiz até agora. Aos que erram o tempo é um inimigo implacável, mas um recurso com o qual alguns de nós, aqueles que tem a sorte de terem epifanias em tempo hábil, podem relacionar-se de uma nova maneira.

Por isso escrevo… e talvez comece a fotografar mais o que for importante

Me salvar de mim.

 

 

 

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