O caminhar do tempo: prólogo

Ao acordar o mundo parecia branco. Saíra de seu casulo de idiossincrasias e devaneios negros, de suas aspirações marrons e outros tantos tons de sépia, aos quais nomeia seus sonhos e pesadelos que agora dão lugar ao clarão do dia em curso. Agora sente a brancura e a pujança da vida e o dissonante peso nas pálpebras, que se esforçam para não entregá-lo novamente ao seu confortável intimo. Tinha de acorda, precisava.

Seu corpo pesava e sua cabeça doía, o almoço aliviara a pressão que exercida em sua barriga uma hora atrás, agora tudo o que há é a labuta, seu trabalho, independentemente de o quão mal se sentisse ou de o quanto quisesse.

Não que fosse ruim no que fazia, mas tinha a necessidade de ir além, ele e aqueles a quem mais desejava agradar jamais aceitariam menos do que a soma da mais intensa abnegação, com três quartos de estoicismo. Não gostava do que fazia e fazia porque achava que devia. Não se importava com o que produzia, aquilo tudo não passava de um meio para atingir os objetivos que outros lhe traçaram. Considerava-se um utilitarista, niilista por natureza, achava-se sobretudo, dotado de capacidades comuns; acreditava piamente que seus méritos derivavam da incompetência dos demais, mais do que de sua própria virtude, via-se como um B+ em um mundo cheio de Delta menos, afinal, “aos olhos de um Shudra qualquer Kshatriya (xátria) parece um Brâmane“, dizia.

Como todo homem, carregava consigo diversas dicotomias. Levava uma vida austera e com pouco tempo livre. Durante a semana gastava-o com sua rotina e com seus livros. Era um poço de contradição, amava seu Nietzsche e queria ser Übermensch. Sabia que seria o certo sê-lo. Amava London e seus contos de força, tanto quanto cerrara os dentes ao ler o fim de seu querido Martin. Era apegado demais ao propósito das trajetórias e aos seus significados, inspirava-se com a força de personagens e figuras que se elevavam e que saiam da suas ignomínias, para transformarem-se nos monolitos que sustentam a era moderna e dão força aos mortais para construirem a história.

Queria ser ele um uma rocha em meio ao mar de mediocridade em que vivia. Acreditava que vivia em eterno retorno, indo e vindo eternamente, até que em algum momento quebraria o ciclo de mediocridade que se sustentava, a cada repetição das mesmas cenas de uma vida que, em angústia por sua insignificância, clamava atrozmente pela martelada, pela disrupção, pela reinvenção, pelo novo, pelo belo e pelo sublime.

O russo que se exploda, meu dois mais dois ainda hão de ser cinco, deixarei de tremer diante da doença da minha rotina, diante da moléstia do ser e do meu “voltar-a-ser”. Que o diabo me carregue por todos os círculos do inferno, se necessário. Hei de me purgar de mim, de meu mundo, de tudo que sou, para enfim me refazer, me reconstruir outrem, alguém melhor, alguém forte, para que o homem de sombras, que toda noite me pune com o martelo, quebrando todos os ossos do meu corpo, um por um, não seja mais meu algoz, minha nêmesis, mas sim, que me liberte da mediocridade de minha eterna repetição.

O sol caía e consigo trazia ao fim seu martírio, havia completado mais um dia em vão, mais um passo para o assassinato de sua vida, menos uma linha que garantira para si nos futuros livros de história. Frustrava-se, irritava-se, retorcia-se com o vigor e o poder de mil sóis, mas a escuridão de sua cegueira nem com tanta luz era obliterada. Perdia tempo, perdia vida.

Depois de ir, voltar. Depois de se banhar, se secar. Depois de inspirar, expirar. Nada tem por si só um peso particular, porém, no seu oásis de consciência, finitude e solidão, as areias do tempo eram o solo perfeito para que a vida, em pleno desabrochar sussurrasse em seus ouvidos: “Todo inicio tem um final”.

Essas palavras o perpassavam pela espinha, enquanto ressoavam profundamente em sua alma. Sabia que era inútil lutar. O tempo é mestre de todas as ações. Despejar sua ânsia e sua fúria diante de sua própria finitude nada mudava em relação ao fato de que seu fim, ocorreria à despeito de sua revolta. Da mesma forma, a apatia nada mais fazia para si do que congelar sua psique em uma câmara hermética, onde estaria alheia a putrefação de seu corpo e à inexorável e linear caminhar dos tempos.

E se os propósitos fossem efervescentes? E se sua transitoriedade e sua banalidade não tivessem sentido? E se os dias perdidos em seu trabalho não fossem uma preparação para aquele momento singular onde se atinge a elevação do espírito e da alma humana?

Tudo que me aflige não passa de uma partícula na sopa temporal da existência. Sou inexpressivo. Infeliz. Certamente impotente, frívolo e fútil. Nada mais importa, nada nunca sequer importou. Estou enlouquecendo em meio a o vazio de sentido que os enunciados e as relações da minha vida constroem.

Será que ao fim realmente nossos ontem serviram apenas para iluminar aos tolos o caminho em pó da morte? Será mesmo que as linhas e narrativas não tem mais significado e que não servimos para ser mais do que um exemplo do triste final que nos aguarda no apagar das velas?

Serei eu o próximo idiota que cheio de som e fúria é solenemente ignorado pelo andar dos tempos?

Não posso. Não serei. Me recuso. Espera aí, onde estou? que barulho é esse? Alguém vem vindo em minha direção. Não posso me mexer!

Nesse momento, uma figura pálida tomava forma em meio a escuridão completa da sala onde estava. Repentinamente percebeu que todo seu monólogo fora em uma sala tomada pela escuridão e que apenas agora seu corpo encontrava a necessidade de mover-se.

Com puxar de um fio e um click, uma lâmpada lançou um raio de luz na cabeça desse estranho homem. Tinha um bigode cerrado e uma fisionomia ameaçadora que juntamente com o reluzente martelo preto em sua mão e seu avental branco preparavam para golpear nosso herói. Ele sussurra:

– Guerra é paz.

Nosso herói estava preso à uma maca que estava inclinada para deixá-lo quase que em pé. Estava preso nas pernas, nos braços e na cabeça por amarras que impediam que tivesse qualquer tipo de defesa, nada podia fazer além de sentir o medo que se apoderava de sua mente e que fazia seu corpo tremer violentamente.

O homem de branco se prepara e logo em seguida murmura:

– Primeiro a perna esquerda, sempre começo pela canela.

 

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