Cenários, prisões e comidas

Cenários são são também minhas prisões psíquicas, são também as projeções na parede da minha caverna.

Cenários são coisas que não amo, mas àquelas que embriagam-me, com seus contornos, propícios para o espetáculo.

O capitalismo por si só, talvez seja o conceito que represente hoje o maior cenário. Ou que absorve os diversos palcos. Os entendidos e os especialistas que não me levem à mal, mas que belo cenário para a construção de narrativas épicas. Que ótimo lugar para os loucos transfigurarem as mais intensas tragédias e epopeias. Que gênio aquele que disse que empreender muda o mundo, oque raramente faz-se para todos porém, é o espetáculo que mais intensamente eleva a vida humana, a transfiguração da busca da própria virtude.

Pobres enlouquecem com a sorte de enriquecer

Choram com o azar de perdê-la

Ricos destroem sua condição, seus egos os consomem

Passam fome

E com a mesma sorte que agora falta ao pobre, talvez volte a sua condição

Winston Churchill disse que certa vez,tradução minha:

O vicio hereditário do capitalismo é a divisão desigual das bençãos; A virtude hereditária do socialismo é a divisão igualitária das misérias.

Errou.

As projeções que observamos hoje, entregam à toda sorte de individuo, a possibilidade de enlouquecer sobre seu próprio império e seus fardos. Essas, por suas vez, não são totalmente nossas, mas assim pensamos em geral.

Temos  a possibilidade de destruir à nossa própria maneira, no grau que nos é conveniente, nossos próprios esconderijos. As indústrias nada mais fazem além nos prover os mais variados motivos para tanto, somos pobres, burros, chatos, estranhos, tristes e normais demais. Não somos especiais, e por não sermos, nos resta enlouquecer e nesse mundo, onde tudo é econômico, recriar as mais intensas e trágicas narrativas para reencontrar-nos com a próxima mentira, com aquela em quando chegar, fará com que tudo seja diferente.

Que vocês não venham me enlouquecer adjetivando-me levianamente de salgados ou até mesmo de miojo, pois desses dois estou farto. Adoro-os, e os comerei tanto quanto for possível, sem jamais me tornar nenhum deles. Sou ao fim humano e assim morrerei, independentemente do que comi, ideologia para mim, não tem espinhas e posso devora-las sem me engasgar com elas.

Não é minha culpa, tampouco minha responsabilidade, redescobrir ou reorganizar o teatro da vida e os diversos atos da existência. Cabe a mim, apenas o papel de fazer parte do espetáculo, vivê-lo, assisti-lo como o malogrado e infeliz participante que, assim como todos vocês sou. Não fui eu que disse que agora, depois de elevar-nos por virtude na Grécia antiga, por Deus na idade média e por liberdade no Renascimento, deveríamos viver, criar e morrer pelo dinheiro que compra as melhores câmeras para retratar o cinismo de nossa “felicidade”, onde cada segundo sorrindo nos custa, dias suando.

Não me entendam mal, não sou rancoroso, nem mesmo contra nada disso, apenas gosto de observar a tragédia através do componente lírico e poético. Mas admito que adoraria ser apenas o observador desse grande espetáculo. Nunca fui daqueles de valorizar as coisas pela dor que necessito para te-las, só não sou daqueles que ama a própria servidão.Não quero acabar enforcado dentro do farol por não suportar a loucura do mundo, apenas sonho com o prazer de vê-la da poltrona do teatro.

Se pudesse conhecer as outras projeções que habitam as paredes das cavernas de universos paralelos, o faria, pois assim escolheria aquela que mais me poupasse e que me oferecesse o melhor dos espetáculos.

Já diria Bulgakov que um tijolo não cai na cabeça por acaso. Não por isso, preciso implorar para que me acertem logo, posso viver com a expectativa da chegada de minha vez.

Câmbio e desligo.

 

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